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A Coluna Prestes e a invasão do Alegrete

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Soldados da Coluna Prestes - Foto: https://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&ved=0ahUKEwiq997Gl-DXAhUFI5AKHYT5DAcQjRwIBw&url=https%3A%2F%2Fteobaldobranco.blogspot.com.br%2Fsearch%3Fupdated-max%3D2010-12-15T12%3A28%3A00-08%3A00%26max-results%3D50%26start%3D12%26by-date%3Dfalse&psig=AOvVaw1F7Dx40zJ_DncSBYGhbwPP&ust=1511921004121640
Soldados da Coluna Prestes - Foto: https://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&ved=0ahUKEwiq997Gl-DXAhUFI5AKHYT5DAcQjRwIBw&url=https%3A%2F%2Fteobaldobranco.blogspot.com.br%2Fsearch%3Fupdated-max%3D2010-12-15T12%3A28%3A00-08%3A00%26max-results%3D50%26start%3D12%26by-date%3Dfalse&psig=AOvVaw1F7Dx40zJ_DncSBYGhbwPP&ust=1511921004121640

A Coluna Prestes e a invasão do Alegrete.

Nos livros “Memórias de um revolucionário: a marcha da coluna” e “A Marcha da Coluna”, João Alberto Lins de Barros relata de forma simples e direta as suas memórias de revolucionário. A um episódio em especial que retrata o início da Coluna Prestes em Alegrete. Descreve o planejamento e a execução de operações militares, os combates, suas derrotas e vitórias. A chamada Coluna Prestes ocorreu entre os anos de 1925 e 1927 e ficou conhecida por esse nome porque o seu principal líder era o militar gaúcho Luís Carlos Prestes.

João Alberto Lins de Barros nasceu em Recife, em 1897, foi para o Rio de Janeiro onde formou-se aspirante da arma de artilharia na Escola Militar de Realengo. Promovido a segundo-tenente, participou do levante ocorrido na Escola Militar em 05 de julho de 1922, (no forte de Copacabana e na Vila Militar), no Rio de Janeiro. Foi transferido para a guarnição de Alegrete, onde facilitou contatos com os companheiros de conspiração, entre os quais o Capitão Luís Carlos Prestes, que servia no batalhão ferroviário de Santo Ângelo.

A Coluna Prestes originou-se da retirada dos tenentes que participaram da Revolução de 1924, na cidade de São Paulo. Não tendo força para resistir à ofensiva do governo federal, os revoltosos marcharam em direção ao Rio Grande do Sul, onde o foco revolucionário estava sob liderança do capitão Luís Carlos Prestes.

Em outubro de 1924 a revolta se alastrava pelas cidades de Uruguaiana, São Borja, São Luís e Santo Ângelo. João Alberto narra que a notícia alarmou a cidade. Os revolucionários marchavam para Alegrete e era preciso destruir sem perda de um instante a ponte de Capivari a fim de cortar as comunicações ferroviárias com Uruguaiana. João Alberto foi indicado para essa missão pelo chefe militar de Alegrete. Reuniu um grupo de 20 soldados e dirigiu-se a Estação Ferroviária, onde segundo ele “uma locomotiva com dois carros já nos aguardava, pronta para sair”.

Ao embarcar, João Alberto é pego de surpresa, uma tropa da polícia estadual comandada pelo Tenente Larré, legalista, tinha a missão de vigiar os movimentos do grupo comandado por ele. O trem da partida, e neste momento Manuel Aranha (Maneco), irmão de Oswaldo Aranha num rápido movimento sobe no vagão do trem.  Sua missão era apoiar o levante na cidade, mas ao saber de uma possível prisão do grupo pelo Tenente Larré, buscou informar da situação a João Alberto. Naquela época uma viagem de trem de Alegrete a Uruguaiana durava aproximadamente 4 horas.

Ao chegar na ponte do Capivari sem nenhum problema, João Alberto resolveu continuar a viagem, até porque ele não trouxe os dinamites para explodir a ponte. O clima fica tenso entre o Tenente Larré e João Alberto. O Tenente tinha fama de ser um legalista radical e um cruel degolador. Passava pela cabeça de João Alberto a possibilidade de ser vítima de uma emboscada. O tempo todo mirava com os olhos o possível algoz e orquestrava um possível confronto entre os dois. Mas o confronto não ocorreu.

O trem segue o seu curso, quando de repente perto de Uruguaiana surge os tão esperados revolucionários. O Tenente Larré junto com o seu grupo é intimado a depor as armas. Organizando uma tropa de 300 revoltosos, João Alberto, junto com outros oficiais liderados pelo veterano militar Capitão Juarez Távora, após uma estafante marcha noturna prepara a invasão do Alegrete. Era madrugada de 30 de outubro de 1924. Tinha que ser um ataque certeiro, mas uma situação era determinante para o ataque. Assim João Alberto narrou o episódio: “eu estava sentado no banco do apontador de minha peça de artilharia, olhando pela luneta. Aquele tiro tinha que ser dado por mim mesmo. O alvo era a torre da igreja protestante que ficava justamente na direção de minha casa. Ela servia de observatório `as tropas defensoras da cidade. Eu não podia confiar este tiro a ninguém. Um desvio na deriva erraria o alvo e a granada do 75 explodiria talvez em minha casa, onde deixara esposa e filho, este com nove dias apenas. Dei ordem de fogo para o atirador e esperei, transito de angústia, os segundos que o projetil levava para atingir a torre. Uma nuvem branca, empoeirada, assinalou o impacto da bala, exatamente no ponto visado. A guarnição da peça que, sem dizer palavra, compreendera o que se passava exultou de alegria.

As tropas responsáveis pela defesa da cidade estavam em maior número e melhor armado. A guarnição federal contava com 500 soldados e outros tantos “provisórios” da polícia gaúcha. A luta estava encarniçada, depois de quatro horas de intenso tiroteio, a munição dos revoltosos começou a acabar, justamente quando já penetrava na cidade, o que obrigou os revoltosos bater em retirada sendo seguido por ataques da cavalaria adversária. A retirada foi de forma desorganizada e sobre fogo do inimigo. Armas eram abandonadas pelo caminho, como canhões, fuzil e armas automáticas. A tropas leais a cidade, narra João Alberto: “degolaram os feridos, dando gritos bárbaros, voltando-se para o nosso lado e atirando”. Recomposto, o grupo de revolucionários organizou-se junto ao mato do arroio Capivari.

Na cidade corria a notícia que João Alberto teria morrido em combate, o desmentido aconteceu após o encontro entre o padre Plácito e ele. Amigos de longa data, comemoraram o encontro e o padre ficou de avisar a sua família que ele estava vivo, sem antes felicitar pela formidável apontaria com que derrubara a torre da igreja protestante.

Com os revoltosos restavam apenas algumas armas automáticas e fuzis e o efetivo não passava de 200 homens.  Nas barrancas do rio Ibirocaí, o chimarrão corria de mão em mão e no fogo era preparado um churrasco, nesta ocasião planos eram traçados. O grupo resolve ir para Uruguaiana, onde foram recebidos como vitoriosos revolucionários.

Em Uruguaiana ocorrem reuniões entre o comando dos revoltosos com o caudilho Honório Lemes, com o objetivo de unirem forças.  Honório Lemes sustentara no ano anterior o movimento de rebelião contra o governo estadual presidido por Borges de Medeiros. Tropeiro por profissão, humilde, analfabeto, mas como ninguém conhecedor do poderio da cavalaria gaúcha. Conhecia todas as estradas, atalhos, passagens de rios e banhados da região, seria um aliado providencial para a revolução dos tenentes. Agora contavam com 3 mil homens, mas continuavam mal armados. Sobravam cavalos. Tinham talvez 5 mil no acampamento.

A tropa marchou em direção de Quaraí, nas cercarias de Guassu-boi, foram surpreendidos pelas forças do Flores da Cunha, ocorre um intenso combate. As tropas legalistas saíram vitoriosas. Honório Lemes retirou-se em direção de Quaraí e o grupo onde João Alberto estava retrocedeu para o Ibirocaí e daí apara Uruguaiana. Como a cidade já estavam na mão dos legalistas, atravessaram a fronteira rumo a Argentina. Em poucos dias depois, terminava o ciclo revolucionário no Rio Grande do Sul.

Do cerco do Alegrete, o grupo decide marchar para o centro do país. Percorreram 24 mil quilômetros, onde a Coluna Prestes pretendia disseminar uma perspectiva insurrecional no Brasil. Pregavam a “salvação ” da República, ideologia que imbuía os membros do exército da “missão” de transformar radicalmente o país. Ao fim da jornada, os membros da Coluna dispersaram-se nas fronteiras do Brasil com a Bolívia e o Paraguai, exilando-se nesses dois países.

Luiz Felipe Schervenski Pereira
Luiz Felipe Schervenski Pereira (Mestre em Educação e Doutor em História)

 

 

 

 

 

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